Raso da Catarina é uma região de
raríssima beleza cênica, que se caracteriza pelas contrastantes paisagens de
cânions e agrupamentos de paredões rochosos areníticos incrustados em meio a
imensas planícies cobertas pela vegetação típica da caatinga.
A etimologia do nome desta região – Raso da Catarina – é
atribuída a duas lendas regionais, sendo a primeira referente à existência
de uma índia da etnia Pankararé - cuja área de distribuição alcançava grande
parte do nordeste do estado da Bahia - que se chamava Catarina e era dotada
de rara beleza. A segunda lenda atribui o nome desta região à existência de
Catarina, companheira de um feroz cangaceiro que fora morto em confronto com
a polícia, denominada à época de "volante", e era proprietária de grandes
áreas localizadas nesta região. Conta-se que mesmo após a morte de seu
marido continuou lutando no cangaço e prestando apoio aos bandos de
cangaceiros que fugiam para a região quando se encontravam encurralados
pelas "volantes"; região esta comumente utilizada como refúgio pelos
diversos bandos de cangaceiros, principalmente o de Lampião – conhecido como
o Rei do Cangaço – e que, numa destas idas ao Raso da Catarina, conheceu
Maria Bonita, sua futura companheira – a Rainha do Cangaço, nascida na
região do Raso da Catarina pertencente à cidade de Paulo Afonso/BA. Ainda
hoje são encontrados enterrados, nesta região, inúmeros artefatos e
utensílios, tais como talheres, punhais, itens de adorno pessoal e munição,
utilizados pelos cangaceiros, os quais tinham por hábito enterrá-los quando
de suas longas jornadas de caminhadas ou de fugas, para depois recuperá-los
no retorno.
Tais aspectos concorreram para que, quando da realização
de estudos das eco-regiões do bioma caatinga, esta região viesse a emprestar
o seu nome para aquela área específica do estudo, que passou então a se
denominar eco-região do Raso da Catarina, a qual está localizada no nordeste
brasileiro, com parcelas incluídas nos estados da Bahia e de Pernambuco,
possuindo uma área total de 257.561 hectares; que tem como principais
características as formações vegetais de caatingas de areia e os grandes
vazios populacionais.
A caatinga é um dos sete biomas existentes no Brasil,
sendo, entretanto, o único exclusivamente brasileiro, daí que grande parte
do seu patrimônio biológico não existe em nenhum outro lugar do mundo. A
etimologia do nome tem origem na língua tupi-guarani e significa "mata
branca" (caa = branca; tinga = mata), dado o aspecto característico da
vegetação de tronco claro e sem folhas quando da estação seca. O bioma
caatinga ocupa uma faixa territorial estimada de 800.000 km² e abrange
grande parte dos estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba,
Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia e pequenas parcelas dos estados do
Maranhão e de Minas Gerais.
Com o intento de implementar as diretrizes formuladas na
Conferência sobre a "Conservação e Uso Racional dos Recursos da Biosfera",
ocorrida em 1968, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência
e a Cultura – UNESCO – iniciou, no ano de 1971, o Programa Homem e Biosfera
(MAB) de Cooperação Científica Internacional, o qual tem por mister a
criação, no âmbito internacional, da Reserva da Biosfera, definida como uma
porção representativa de ecossistemas, tanto os terrestres como os
costeiros. Decidiu-se que, aos países membros do MAB, caberia a criação e o
monitoramento sistemático das Reservas de Biosfera sediadas em seus
territórios e, especialmente, a divulgação das informações concernentes às
alterações ambientais nestas áreas, notadamente àquelas decorrentes das
ações humanas.
Assim,
no ano de 2001, foi realizada uma reunião com os representantes dos países
membros do Conselho Internacional do MAB, em Paris/França, com o fito de
apresentar e, em alguns casos, aprovar novas inscrições de criação de
reservas junto à Rede Mundial de Reservas da Biosfera. Nesta ocasião, os
países membros do Conselho propuseram a criação de dezoito sítios,
distribuídos em treze países. Dentre as Reservas Internacionais reconhecidas
nesta data incluem-se as brasileiras situadas na Amazônia Central e
Caatinga, as quais se somaram às já reconhecidas Reservas da Biosfera do
Cerrado, da Mata Atlântica e do Pantanal.
A porção da Região Nordeste onde está inserida a Reserva
da Biosfera da Caatinga é caracterizada pela adversidade climática da seca,
pela pobreza de suas populações e as conseqüentes pressões que estas vêem
exercendo sobre natureza; as quais são conseqüentes, especialmente, de
práticas agropecuárias inadequadas que têm sido realizadas desde os
primórdios do processo de colonização portuguesa nesta região. Fato este que
tem concorrido para a redução progressiva das áreas naturais remanescentes
localizadas na região.
Neste importante contexto ecológico foi criada, em 04 de
janeiro de 1984, a Reserva Ecológica Raso da Catarina, no interior da
eco-região de mesmo nome, tendo uma área inicial de cerca de 150.000
hectares, mas que depois foi reduzida para 99.772 hectares e que, com a
promulgação do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza –
SNUC – Lei 9.985/2000, em 18 de julho de 2000, foi alterada a sua categoria
de unidade de conservação, passando de reserva ecológica para estação
ecológica, uma categoria de unidade de conservação de proteção integral e
bem mais restritiva em termos de possibilidades de utilização.
Notadamente pelo aspecto da alta representatividade do
bioma caatinga, aliado à ocorrência de espécies endêmicas, tanto vegetais
como animais, a inclusão da Estação Ecológica Raso da Catarina na Rede
Mundial de Reservas da Biosfera se consubstancia como parte do esforço
ambientalista nacional para dirimir os problemas e as ameaças à natureza.
Sua criação estimula a adoção de medidas de conservação ambiental, porquanto
facilita a inserção de iniciativas privadas e públicas nos programas e
projetos de desenvolvimento econômico sustentável.
Inserido neste singular contexto ambiental e histórico
está o Centro de Integração e Aperfeiçoamento em Polícia Ambiental da
Caatinga – CIAPA/Caatinga, a mais nova Unidade de Ensino do Departamento de
Polícia Federal, diretamente vinculado à Academia Nacional de Polícia,
criado mediante realização de convênio entre o Departamento de Polícia
Federal - DPF e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Naturais Renováveis – IBAMA, e implantado no interior da Estação Ecológica
Raso da Catarina.
Pela imensa riqueza de atributos ecológicos existentes na
Estação Ecológica Raso da Catarina são previstas a realização, pelo CIAPA/
Caatinga, de inúmeros tipos de cursos e treinamentos nas áreas ambiental e
operacional policial, tanto específicos para os servidores das instituições
parceiras do convênio, como para demais instituições públicas e privadas que
atuem na área ambiental.
Todos os esforços envidados para a criação e efetiva
implementação do CIAPA/Caatinga têm sido levados a cabo por profissionais do
DPF e do IBAMA, os quais têm vislumbrado nesta oportunidade, muito além do
salutar atendimento à imperiosa demanda por qualificação especializada de
seus quadros de servidores, mas também a implementação de um conjunto de
ações que concorram para a efetiva presença institucional numa das regiões
do Brasil que, paradoxalmente à exclusiva riqueza de biodiversidade
existente, é uma das mais vitimadas pela ocorrência de delitos ambientais,
sendo um dos ícones desta luta a raríssima arara-azul-de-lear (Anodorhynchus
leari), ave extremamente bela que só existe na região do Raso da
Catarina e tem uma população livre na natureza muito pequena, e que por
isso, torna imprescindível que se tomem medidas enérgicas para a sua
preservação, porquanto tende inexoravelmente à extinção. Por conseguinte, é
considerada a vedete do tráfico internacional de animais silvestres, dado o
seu valor no mercado negro, que chega a alcançar a vultosa cifra de cem mil
dólares, cada arara! Apesar desses imensos problemas, hoje existe uma
população de aproximadamente 600 araras-azúis-de-lear livres na natureza
onde, há cerca de sete anos, eram apenas 160. Que esse aumento populacional
não seja encarado apenas como um bom resultado da união e do trabalho de
alguns, mas sim, como um desafio de melhorar as condições, principalmente no
que se refere à fiscalização e a atuação conjunta, a fim de que esse número
cresça cada vez mais e que esta e outras espécies se tornem abundantes no
local que escolheram para viver, o Raso da Catarina!
Ante
este contexto sócio-ambiental, as atividades a serem desenvolvidas pelo
CIAPA/Caatinga deverão extrapolar o campo afeto à área pedagógica, com o
intento de se implementar, concomitantemente, um bojo de ações inerentes às
atividades de educação ambiental e capacitação agropecuária, haja vista que
muitas das atitudes lesivas perpetradas contra o meio ambiente na região são
realizadas pelos próprios habitantes destas áreas que, quer por falta de
opção de trabalho ou quer por falta de conhecimentos ambientais, atuam
destruindo o seu maior patrimônio – a natureza.
Por isso tudo, o Raso da Catarina está aí para ser
conhecido, admirado e, acima de tudo, preservado em toda a sua magnitude de
biodiversidade existente!
Fotos: DCS / Projeto Arara Azul
O
Projeto Arara Azul envolve pesquisa,
manejo e conservação da espécie. Para executá-lo, biólogos, médicos
veterinários e estudantes universitários dividem ações que vão desde estudos
técnicos sobre reprodução e comportamento da espécie e de seu habitat, até
atividades de educação ambiental.
Iniciado em 1990 pela bióloga Neiva Guedes, o projeto
monitora cerca de 4 mil indivíduos distribuídos em uma área de 450 mil
hectares no Pantanal, com 346 ninhos naturais e 198 artificiais cadastrados.
Segundo, Neiva, as ações do Projeto e seus resultados
envolveram grande parte da população de MS e expandiram-se para o resto do
Brasil e países vizinhos. "Peões e fazendeiros passaram inclusive a apoiar o
trabalho. Hoje, eles têm orgulho das araras que povoam a região", conta.
Algumas das atividades do Projeto podem ser conhecidas na
Pousada Araraúna, localizada no Instituto de Pesquisa do Pantanal da UNIDERP,
no Refúgio Ecológico Caiman e nas pousadas Aguapé, Rio Negro, Xaraés, entre
outras.
O Projeto Arara Azul é executado em parceria com a
UNIDERP – Universidade para o Desenvolvimento do Estado e Região, WWF do
Brasil, Toyota do Brasil e R. E. Caiman, além de contar com o apoio de
outras empresas como Brasil Telecom, Vanzin Escapamentos, Bradesco
Capitalização, FMB, GNF e BR Tintas.
Arara
Azul – Ameaçada de extinção, a arara azul (Anodorhynchus hyacinthinus)
se sobressai por sua beleza e por ser a maior do mundo: aproximadamente um
metro da ponta do bico à cauda e cerca de 1,3 quilo de peso.
De cor predominantemente azul que contrasta com o amarelo
da mandíbula e dos olhos, a arara azul é também conhecida pelo nome indígena
de araraúna. Neiva Guedes explica que a arara azul se distingue, no verde
que caracteriza a paisagem pantaneira, por voar em grupo. "Os chamados
‘dormitórios’, locais onde a espécie se agrupa no final do dia, funcionam
como ‘centro de troca de informações’, isso porque a arara azul tem um alto
grau de socialização. Os casais, por exemplo, são extremamente fiéis e
dividem as tarefas de cuidar dos filhotes", diz a bióloga.
As araras azuis nascem frágeis e ficam em média pouco
mais de três meses no ninho, sob o cuidado atento dos pais. Depois desse
período, se aventuram em seus primeiros vôos. "A convivência familiar, no
entanto, não acaba aí. Mesmo sem retornar ao ninho, os filhotes permanecem
nas proximidades e são alimentados pelos pais até os seis meses", relata
Neiva.
Após sete anos de idade, a arara azul já está pronta para
começar a sua própria família. Em média, a fêmea terá dois ovos e,
responsável pela incubação, passará a maior parte do tempo no ninho, sendo
alimentada pelo macho. Após 28 ou 30 dias o ovo, do tamanho de um ovo de
galinha, eclodirá.
"Os filhotes ganham peso e tamanho rapidamente. Mas até
completarem 45 dias correm risco de vida, seja por larvas de moscas,
baratas, formigas ou por outras aves que invadem o ninho, como tucano e
gaviões. Na maioria dos casais, só um filhote sobrevive", conta.
Habitat
– No
Pantanal, 90% dos ninhos de araras azuis são encontrados num único tipo de
árvore, o manduvi. Por ter um cerne macio e suscetível à formação de ocos,
são mais utilizadas pela espécie.
Segundo a bióloga, as araras azuis não começam um buraco,
mas aumentam pequenas cavidades feitas por pica-paus, ou provocados pela
quebra de galho, ou mesmo iniciados por fungos e cupins. "O buraco utilizado
para o ninho é fundo e aconchegante, forrado com serragem que as araras
beliscam da própria árvore".
Ela fala ainda que, como é difícil encontrar cavidades
naturais e há uma grande disputa com outras espécies, o Projeto Arara Azul
desenvolveu e instalou ninhos artificiais. Os primeiros ninhos foram
colocados em 1997, em fazendas do Pantanal. A taxa de ocupação pelas araras
azuis foi pequena, mas atingiu o objetivo de contribuir para a conservação
da espécie a curto prazo, porque parte deles foi ocupado por
araras-vermelhas, tucanos, gaviões, corujas, patos e urubus, diminuindo a
disputa por ninhos naturais.
Com relação à alimentação, Neiva explica que a dieta da
arara azul é altamente energética, baseada em castanhas retiradas de cocos
de duas espécies de palmeiras: acuri e bocaiúva. As araras comem os cocos de
acuri principalmente quando já estão caídos no chão, seja no campo ou nos
currais. Elas aproveitam as sementes descartadas pelo gado ou animais
silvestres. No caso da bocaiúva, o coco é colhido e comido diretamente no
cacho. Como são aves de comportamento bastante social, as araras se reúnem
para comer logo cedo, pela manhã, ou no final da tarde.
Ameaças
– Até a
década de 80, estima-se que mais de 10 mil araras foram capturadas pelo
tráfico de animais, que se beneficia da demanda interna e, principalmente,
de outros países. A situação da espécie se agravou com a descaracterização
de seu habitat pelo desmatamento e queimadas, bem como pela caça realizada
por índios que vendem adornos feitos com penas de araras.
Hoje,
o tráfico de animais continua representando uma ameaça, principalmente no
nordeste e norte do Brasil. No Mato Grosso do Sul já se constata uma
diminuição significativa do comércio ilegal, principalmente devido ao
trabalho de conscientização realizado pelo Projeto Arara Azul, que tem como
foco principal, a conservação do meio ambiente onde vive a espécie.