MEIO AMBIENTE


Fotos: Adriano Paiva e Kilma Manso

Vista aérea das cadeias de formações rochosas de arenito (paredões) da Estação Ecológica Raso da Catarina (Jeremoaba/BA)O Raso da Catarina é uma região de raríssima beleza cênica, que se caracteriza pelas contrastantes paisagens de cânions e agrupamentos de paredões rochosos areníticos incrustados em meio a imensas planícies cobertas pela vegetação típica da caatinga.

A etimologia do nome desta região – Raso da Catarina – é atribuída a duas lendas regionais, sendo a primeira referente à existência de uma índia da etnia Pankararé - cuja área de distribuição alcançava grande parte do nordeste do estado da Bahia - que se chamava Catarina e era dotada de rara beleza. A segunda lenda atribui o nome desta região à existência de Catarina, companheira de um feroz cangaceiro que fora morto em confronto com a polícia, denominada à época de "volante", e era proprietária de grandes áreas localizadas nesta região. Conta-se que mesmo após a morte de seu marido continuou lutando no cangaço e prestando apoio aos bandos de cangaceiros que fugiam para a região quando se encontravam encurralados pelas "volantes"; região esta comumente utilizada como refúgio pelos diversos bandos de cangaceiros, principalmente o de Lampião – conhecido como o Rei do Cangaço – e que, numa destas idas ao Raso da Catarina, conheceu Maria Bonita, sua futura companheira – a Rainha do Cangaço, nascida na região do Raso da Catarina pertencente à cidade de Paulo Afonso/BA. Ainda hoje são encontrados enterrados, nesta região, inúmeros artefatos e utensílios, tais como talheres, punhais, itens de adorno pessoal e munição, utilizados pelos cangaceiros, os quais tinham por hábito enterrá-los quando de suas longas jornadas de caminhadas ou de fugas, para depois recuperá-los no retorno.

Tais aspectos concorreram para que, quando da realização de estudos das eco-regiões do bioma caatinga, esta região viesse a emprestar o seu nome para aquela área específica do estudo, que passou então a se denominar eco-região do Raso da Catarina, a qual está localizada no nordeste brasileiro, com parcelas incluídas nos estados da Bahia e de Pernambuco, possuindo uma área total de 257.561 hectares; que tem como principais características as formações vegetais de caatingas de areia e os grandes vazios populacionais.

A caatinga é um dos sete biomas existentes no Brasil, sendo, entretanto, o único exclusivamente brasileiro, daí que grande parte do seu patrimônio biológico não existe em nenhum outro lugar do mundo. A etimologia do nome tem origem na língua tupi-guarani e significa "mata branca" (caa = branca; tinga = mata), dado o aspecto característico da vegetação de tronco claro e sem folhas quando da estação seca. O bioma caatinga ocupa uma faixa territorial estimada de 800.000 km² e abrange grande parte dos estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia e pequenas parcelas dos estados do Maranhão e de Minas Gerais.

Com o intento de implementar as diretrizes formuladas na Conferência sobre a "Conservação e Uso Racional dos Recursos da Biosfera", ocorrida em 1968, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO – iniciou, no ano de 1971, o Programa Homem e Biosfera (MAB) de Cooperação Científica Internacional, o qual tem por mister a criação, no âmbito internacional, da Reserva da Biosfera, definida como uma porção representativa de ecossistemas, tanto os terrestres como os costeiros. Decidiu-se que, aos países membros do MAB, caberia a criação e o monitoramento sistemático das Reservas de Biosfera sediadas em seus territórios e, especialmente, a divulgação das informações concernentes às alterações ambientais nestas áreas, notadamente àquelas decorrentes das ações humanas.

Assim, no ano de 2001, foi realizada uma reunião com os representantes dos países membros do Conselho Internacional do MAB, em Paris/França, com o fito de apresentar e, em alguns casos, aprovar novas inscrições de criação de reservas junto à Rede Mundial de Reservas da Biosfera. Nesta ocasião, os países membros do Conselho propuseram a criação de dezoito sítios, distribuídos em treze países. Dentre as Reservas Internacionais reconhecidas nesta data incluem-se as brasileiras situadas na Amazônia Central e Caatinga, as quais se somaram às já reconhecidas Reservas da Biosfera do Cerrado, da Mata Atlântica e do Pantanal.

A porção da Região Nordeste onde está inserida a Reserva da Biosfera da Caatinga é caracterizada pela adversidade climática da seca, pela pobreza de suas populações e as conseqüentes pressões que estas vêem exercendo sobre natureza; as quais são conseqüentes, especialmente, de práticas agropecuárias inadequadas que têm sido realizadas desde os primórdios do processo de colonização portuguesa nesta região. Fato este que tem concorrido para a redução progressiva das áreas naturais remanescentes localizadas na região.

Neste importante contexto ecológico foi criada, em 04 de janeiro de 1984, a Reserva Ecológica Raso da Catarina, no interior da eco-região de mesmo nome, tendo uma área inicial de cerca de 150.000 hectares, mas que depois foi reduzida para 99.772 hectares e que, com a promulgação do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza – SNUC – Lei 9.985/2000, em 18 de julho de 2000, foi alterada a sua categoria de unidade de conservação, passando de reserva ecológica para estação ecológica, uma categoria de unidade de conservação de proteção integral e bem mais restritiva em termos de possibilidades de utilização.

Notadamente pelo aspecto da alta representatividade do bioma caatinga, aliado à ocorrência de espécies endêmicas, tanto vegetais como animais, a inclusão da Estação Ecológica Raso da Catarina na Rede Mundial de Reservas da Biosfera se consubstancia como parte do esforço ambientalista nacional para dirimir os problemas e as ameaças à natureza. Sua criação estimula a adoção de medidas de conservação ambiental, porquanto facilita a inserção de iniciativas privadas e públicas nos programas e projetos de desenvolvimento econômico sustentável.

Inserido neste singular contexto ambiental e histórico está o Centro de Integração e Aperfeiçoamento em Polícia Ambiental da Caatinga – CIAPA/Caatinga, a mais nova Unidade de Ensino do Departamento de Polícia Federal, diretamente vinculado à Academia Nacional de Polícia, criado mediante realização de convênio entre o Departamento de Polícia Federal - DPF e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA, e implantado no interior da Estação Ecológica Raso da Catarina.

Pela imensa riqueza de atributos ecológicos existentes na Estação Ecológica Raso da Catarina são previstas a realização, pelo CIAPA/ Caatinga, de inúmeros tipos de cursos e treinamentos nas áreas ambiental e operacional policial, tanto específicos para os servidores das instituições parceiras do convênio, como para demais instituições públicas e privadas que atuem na área ambiental.

Todos os esforços envidados para a criação e efetiva implementação do CIAPA/Caatinga têm sido levados a cabo por profissionais do DPF e do IBAMA, os quais têm vislumbrado nesta oportunidade, muito além do salutar atendimento à imperiosa demanda por qualificação especializada de seus quadros de servidores, mas também a implementação de um conjunto de ações que concorram para a efetiva presença institucional numa das regiões do Brasil que, paradoxalmente à exclusiva riqueza de biodiversidade existente, é uma das mais vitimadas pela ocorrência de delitos ambientais, sendo um dos ícones desta luta a raríssima arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari), ave extremamente bela que só existe na região do Raso da Catarina e tem uma população livre na natureza muito pequena, e que por isso, torna imprescindível que se tomem medidas enérgicas para a sua preservação, porquanto tende inexoravelmente à extinção. Por conseguinte, é considerada a vedete do tráfico internacional de animais silvestres, dado o seu valor no mercado negro, que chega a alcançar a vultosa cifra de cem mil dólares, cada arara! Apesar desses imensos problemas, hoje existe uma população de aproximadamente 600 araras-azúis-de-lear livres na natureza onde, há cerca de sete anos, eram apenas 160. Que esse aumento populacional não seja encarado apenas como um bom resultado da união e do trabalho de alguns, mas sim, como um desafio de melhorar as condições, principalmente no que se refere à fiscalização e a atuação conjunta, a fim de que esse número cresça cada vez mais e que esta e outras espécies se tornem abundantes no local que escolheram para viver, o Raso da Catarina!

Ante este contexto sócio-ambiental, as atividades a serem desenvolvidas pelo CIAPA/Caatinga deverão extrapolar o campo afeto à área pedagógica, com o intento de se implementar, concomitantemente, um bojo de ações inerentes às atividades de educação ambiental e capacitação agropecuária, haja vista que muitas das atitudes lesivas perpetradas contra o meio ambiente na região são realizadas pelos próprios habitantes destas áreas que, quer por falta de opção de trabalho ou quer por falta de conhecimentos ambientais, atuam destruindo o seu maior patrimônio – a natureza.

Por isso tudo, o Raso da Catarina está aí para ser conhecido, admirado e, acima de tudo, preservado em toda a sua magnitude de biodiversidade existente!

 

 

Fotos: DCS / Projeto Arara Azul

by Adriano PaivaO Projeto Arara Azul envolve pesquisa, manejo e conservação da espécie. Para executá-lo, biólogos, médicos veterinários e estudantes universitários dividem ações que vão desde estudos técnicos sobre reprodução e comportamento da espécie e de seu habitat, até atividades de educação ambiental.

Iniciado em 1990 pela bióloga Neiva Guedes, o projeto monitora cerca de 4 mil indivíduos distribuídos em uma área de 450 mil hectares no Pantanal, com 346 ninhos naturais e 198 artificiais cadastrados.

Segundo, Neiva, as ações do Projeto e seus resultados envolveram grande parte da população de MS e expandiram-se para o resto do Brasil e países vizinhos. "Peões e fazendeiros passaram inclusive a apoiar o trabalho. Hoje, eles têm orgulho das araras que povoam a região", conta.

Algumas das atividades do Projeto podem ser conhecidas na Pousada Araraúna, localizada no Instituto de Pesquisa do Pantanal da UNIDERP, no Refúgio Ecológico Caiman e nas pousadas Aguapé, Rio Negro, Xaraés, entre outras.

O Projeto Arara Azul é executado em parceria com a UNIDERP – Universidade para o Desenvolvimento do Estado e Região, WWF do Brasil, Toyota do Brasil e R. E. Caiman, além de contar com o apoio de outras empresas como Brasil Telecom, Vanzin Escapamentos, Bradesco Capitalização, FMB, GNF e BR Tintas.

Arara Azul – Ameaçada de extinção, a arara azul (Anodorhynchus hyacinthinus) se sobressai por sua beleza e por ser a maior do mundo: aproximadamente um metro da ponta do bico à cauda e cerca de 1,3 quilo de peso.

De cor predominantemente azul que contrasta com o amarelo da mandíbula e dos olhos, a arara azul é também conhecida pelo nome indígena de araraúna. Neiva Guedes explica que a arara azul se distingue, no verde que caracteriza a paisagem pantaneira, por voar em grupo. "Os chamados ‘dormitórios’, locais onde a espécie se agrupa no final do dia, funcionam como ‘centro de troca de informações’, isso porque a arara azul tem um alto grau de socialização. Os casais, por exemplo, são extremamente fiéis e dividem as tarefas de cuidar dos filhotes", diz a bióloga.

As araras azuis nascem frágeis e ficam em média pouco mais de três meses no ninho, sob o cuidado atento dos pais. Depois desse período, se aventuram em seus primeiros vôos. "A convivência familiar, no entanto, não acaba aí. Mesmo sem retornar ao ninho, os filhotes permanecem nas proximidades e são alimentados pelos pais até os seis meses", relata Neiva.

Após sete anos de idade, a arara azul já está pronta para começar a sua própria família. Em média, a fêmea terá dois ovos e, responsável pela incubação, passará a maior parte do tempo no ninho, sendo alimentada pelo macho. Após 28 ou 30 dias o ovo, do tamanho de um ovo de galinha, eclodirá.

"Os filhotes ganham peso e tamanho rapidamente. Mas até completarem 45 dias correm risco de vida, seja por larvas de moscas, baratas, formigas ou por outras aves que invadem o ninho, como tucano e gaviões. Na maioria dos casais, só um filhote sobrevive", conta.

Habitat – No Pantanal, 90% dos ninhos de araras azuis são encontrados num único tipo de árvore, o manduvi. Por ter um cerne macio e suscetível à formação de ocos, são mais utilizadas pela espécie.

Segundo a bióloga, as araras azuis não começam um buraco, mas aumentam pequenas cavidades feitas por pica-paus, ou provocados pela quebra de galho, ou mesmo iniciados por fungos e cupins. "O buraco utilizado para o ninho é fundo e aconchegante, forrado com serragem que as araras beliscam da própria árvore".

Ela fala ainda que, como é difícil encontrar cavidades naturais e há uma grande disputa com outras espécies, o Projeto Arara Azul desenvolveu e instalou ninhos artificiais. Os primeiros ninhos foram colocados em 1997, em fazendas do Pantanal. A taxa de ocupação pelas araras azuis foi pequena, mas atingiu o objetivo de contribuir para a conservação da espécie a curto prazo, porque parte deles foi ocupado por araras-vermelhas, tucanos, gaviões, corujas, patos e urubus, diminuindo a disputa por ninhos naturais.

Com relação à alimentação, Neiva explica que a dieta da arara azul é altamente energética, baseada em castanhas retiradas de cocos de duas espécies de palmeiras: acuri e bocaiúva. As araras comem os cocos de acuri principalmente quando já estão caídos no chão, seja no campo ou nos currais. Elas aproveitam as sementes descartadas pelo gado ou animais silvestres. No caso da bocaiúva, o coco é colhido e comido diretamente no cacho. Como são aves de comportamento bastante social, as araras se reúnem para comer logo cedo, pela manhã, ou no final da tarde.

Ameaças – Até a década de 80, estima-se que mais de 10 mil araras foram capturadas pelo tráfico de animais, que se beneficia da demanda interna e, principalmente, de outros países. A situação da espécie se agravou com a descaracterização de seu habitat pelo desmatamento e queimadas, bem como pela caça realizada por índios que vendem adornos feitos com penas de araras.

Hoje, o tráfico de animais continua representando uma ameaça, principalmente no nordeste e norte do Brasil. No Mato Grosso do Sul já se constata uma diminuição significativa do comércio ilegal, principalmente devido ao trabalho de conscientização realizado pelo Projeto Arara Azul, que tem como foco principal, a conservação do meio ambiente onde vive a espécie.

 

 

 

 

 


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